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Newcastle United v Zulte Waragem, 2007 (2) — Photo: User:Responsible? via Wikimedia Commons (Public domain)

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Michael Owen e o talento raro de ser odiado por todo mundo

Poucos jogadores na história do futebol conseguiram a proeza de sair mal com praticamente todo clube que vestiram a camisa. Michael Owen é um desses casos, e não é coincidência. A trajetória dele é um estudo em como um talento inegável pode ser sistematicamente desperdiçado por uma combinação de ambição mal calibrada, lealdade seletiva e timing cronicamente ruim.

By Amanda Souza· Repórter de mercado·Publicado ·3 MIN DE LEITURA

O começo: Liverpool e o adeus que não precisava ser assim

Owen chegou ao Liverpool como um fenômeno. Artilheiro nato, veloz, clínico na área: o tipo de centroavante que os ingleses chamam de matador sem precisar explicar mais nada. A Bola de Ouro de 2001 chegou junto com um status que poucos jogadores britânicos já alcançaram.

O problema não foi o que ele fez em Liverpool. Foi o que ele escolheu depois. Saiu para o Real Madrid, passou um ano periférico no Bernabéu, e quando voltou à Inglaterra, não voltou para Anfield. Foi para o Newcastle. Para a torcida do Liverpool, aquilo foi lido como uma traição calculada. Não é que ele fosse embora: é que ele foi embora do jeito errado, para o lugar errado, pelas razões erradas.

Real Madrid: um ano de banco

No Real Madrid, Owen nunca foi titular de verdade. Chegou num elenco recheado, jogou pouco, e saiu sem deixar marca. Para um clube acostumado a craques que dominam o palco, ele foi uma nota de rodapé. A torcida merengue não chegou a odiá-lo porque nunca chegou a se importar com ele de verdade. Indiferença, no Bernabéu, é quase pior.

Newcastle: o contrato, as lesões e o abandono

No Newcastle, a história ficou mais complicada. Owen chegou com status de estrela e saiu como símbolo de tudo que pode dar errado quando um clube aposta alto num jogador que o próprio corpo não consegue mais sustentar. As lesões foram reais, mas a percepção que ficou na Tyne foi a de um jogador que nunca entregou o que prometeu e foi embora sem olhar para trás. A torcida do Newcastle tem memória longa para esse tipo de coisa.

Manchester United: o pecado capital

Se há um capítulo que define a relação de Owen com as torcidas, é o período no Manchester United. Para qualquer ex-jogador do Liverpool, vestir a camisa do United é uma escolha que exige ou uma justificativa muito boa ou uma indiferença total à opinião alheia. Owen optou pela segunda. O resultado foi previsível: a torcida de Liverpool nunca perdoou, e a do United nunca o adotou de verdade. Ele foi um jogador de rotação num elenco grande, útil às vezes, esquecível na maioria.

Stoke City: o fim sem glória

A passagem pelo Stoke City, já no fim da carreira, foi discreta. Mas a discreta não é neutra quando o contexto todo já está manchado. Até lá, Owen já tinha construído uma reputação que o seguia: jogador que prioriza o próprio interesse, que some quando o clube mais precisa, que nunca parece estar no lugar certo pelo motivo certo.

O que explica tudo isso

Há uma diferença entre um jogador que decepciona e um jogador que ofende. Owen conseguiu as duas coisas em sequência, em clubes diferentes, com públicos diferentes. Parte disso é circunstância: lesões graves afetam qualquer carreira. Mas a narrativa que se formou ao redor dele não é só sobre o que o corpo não aguentou. É sobre escolhas.

A decisão de ir ao Newcastle em vez de voltar ao Liverpool. A decisão de assinar com o United. A postura pública ao longo dos anos, que raramente transmitiu afeto genuíno por nenhum dos clubes que o pagaram. Torcida de futebol perdoa muita coisa. Não perdoa indiferença.

O que torna o caso Owen singular não é que ele saiu mal com um clube. É que ele saiu mal com quase todos, por razões diferentes, deixando cada torcida com a sensação de que nunca foi realmente deles. Isso é difícil de conseguir sem um talento especial para o timing errado.

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