Photo: Hzh via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
De Zerbi e o dinheiro do Spurs: por que isso incomoda tanta gente?
O Tottenham está gastando dinheiro de verdade e isso parece ter tirado o sossego de muita gente. A reação é curiosa: nenhum outro grande clube da Premier League é tratado com essa desconfiança quando abre o cofre. A questão não é se o Spurs pode gastar, é por que o fato de ele gastar ainda surpreende.
O clube que virou sinônimo de promessa não cumprida
Durante anos, o Tottenham construiu uma identidade involuntária: o clube que chega perto, mas não fecha. Semifinais de Champions League, temporadas brilhantes, janelas de transferências animadas que terminavam em decepção. A torcida aprendeu a desconfiar do próprio otimismo, e a imprensa aprendeu junto.
Essa memória coletiva criou um reflexo automático. Quando o Spurs anuncia uma contratação cara, a pergunta imediata não é 'esse jogador encaixa no esquema?' mas sim 'quanto tempo até isso dar errado?'. É um preconceito construído com base em histórico real, mas que já não corresponde ao que está acontecendo agora.
O que mudou na estrutura do clube
O Tottenham tem um dos estádios mais modernos e lucrativos da Europa. A capacidade do Tottenham Hotspur Stadium coloca o clube entre os que geram mais receita de dia de jogo na Premier League. Isso não é opinião: é a razão pela qual o clube consegue competir financeiramente com rivais que têm décadas de investimento acumulado.
A chegada de De Zerbi como técnico sinalizou uma mudança de postura: no estilo de jogo e na ambição declarada. Contratar um técnico com esse perfil, que recusou propostas de clubes com histórico de títulos recentes, já diz algo sobre o projeto. Gastar bem acima do que o Spurs costumava gastar é a consequência natural dessa mudança de rota.
O caso Savinho deixa isso claro
A contratação de Savinho é o exemplo mais concreto dessa nova postura. O Manchester City comprou o mesmo jogador por um valor significativamente menor dois anos antes. No intervalo, Savinho ficou mais no banco do que em campo em Manchester. Mesmo assim, o Tottenham pagou mais que o dobro do que o City havia desembolsado.
Isso pode parecer desperdício. Mas o mercado de futebol não funciona com base no que um jogador fez no clube anterior: funciona com base no que ele pode fazer no próximo, e em quanto outros clubes pagariam por ele. O Spurs pagou preço de mercado por um jogador de 22 anos com potencial claro. Outros clubes fazem isso toda janela sem que ninguém levante a sobrancelha.
A dupla medida que De Zerbi identificou
Quando De Zerbi diz que ouviu vezes demais a expressão 'dinheiro do Tottenham' dita com ironia, ele está apontando para algo real. Arsenal, Chelsea, Manchester United e Liverpool gastam fortunas há décadas sem que o gasto em si vire o assunto. O investimento é tratado como parte natural do projeto. No caso do Spurs, o gasto vira notícia, vira piada, vira prova de desespero, antes mesmo de um resultado.
Isso tem raiz no histórico, sim. Mas tem raiz também em algo mais simples: o Tottenham ficou tempo suficiente fora da conversa pelo título para que a mídia e os torcedores rivais se acostumassem a tratá-lo como clube de segundo escalão dentro da Premier League. Quando ele volta a agir como grande clube, a reação é de estranhamento.
Gastar não garante nada, mas não gastar garante o quê?
A crítica implícita ao investimento do Spurs assume que gastar muito é sinal de gestão ruim. Mas a Premier League é o campeonato mais caro do mundo justamente porque todos os clubes que competem de verdade gastam. Quem não gasta fica para trás: não é teoria, é o que os últimos vinte anos mostram.
O Tottenham não está inventando nada. Está fazendo o que Arsenal, Newcastle e Aston Villa fizeram quando decidiram que queriam ser levados a sério. A diferença é que, no caso do Spurs, cada contratação ainda é recebida com um ceticismo que os outros não enfrentam na mesma medida.
De Zerbi tem razão em achar estranho. O problema não é o Tottenham gastar. O problema é que tanta gente ainda acha que isso é o problema.
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