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Illustration: a floodlit football ground seen from outside at dusk, drawn in heavy ink over halftone texture.

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O fim da taça de vinho pós-jogo na Premier League

Era normal ver dois técnicos rivais, minutos depois de se destruírem taticamente em campo, sentados no gabinete do mandante com uma taça de vinho na mão. Essa cena praticamente sumiu da Premier League, e o motivo tem menos a ver com falta de educação e mais com a própria engrenagem do futebol moderno.

By Lucas Martins· Repórter de campo·Publicado ·3 MIN DE LEITURA

Um ritual que já foi quase obrigatório

Durante boa parte das décadas de 1990 e 2000, o pós-jogo na Premier League tinha um capítulo fixo que a torcida raramente via: o técnico da casa recebia o rival no seu gabinete para uma taça de vinho, às vezes uma cerveja, e uma conversa que não tinha nada a ver com o que tinha acabado de acontecer em campo. Sir Alex Ferguson era o nome mais associado a esse costume. O escocês mantinha uma adega pessoal em Old Trafford e fazia questão de convidar o técnico visitante, fosse ele amigo de longa data ou rival raivoso da rodada anterior.

A imagem que resume bem esse mundo é a de Harry Redknapp e Ferguson assistindo corrida de cavalo e apostando juntos antes de uma partida. Não era episódio isolado. Era o retrato de uma geração de técnicos que se cruzava ano após ano, temporada após temporada, e que tratava esse encontro como parte do trabalho, não como favor.

Por que a amizade nascia mais fácil

O tempo era o grande ingrediente por trás desse costume. Ferguson ficou décadas no United. Ao seu redor, uma turma de técnicos praticamente fixa circulava pela liga temporada após temporada: Sam Allardyce, David Moyes, o próprio Redknapp, além de ex-jogadores que viraram técnicos como Steve Bruce e Mark Hughes. Esses nomes se enfrentavam duas vezes por ano, ano sim, ano também, durante quase toda uma carreira. Dava tempo de construir relação de verdade, do tipo que sobrevive a uma derrota amarga ou uma polêmica de arbitragem.

Esse ecossistema também tinha menos gente de fora. A Premier League daquela era ainda era dominada por técnicos britânicos e irlandeses, com trajetórias parecidas: jogaram juntos, competiram nas divisões de baixo, se conheciam do circuito antes mesmo de chegar à elite. O convite para a taça de vinho era quase uma continuação natural dessa convivência.

O que mudou: a cadeira de técnico virou posição de risco

A explicação mais simples é também a mais correta: a rotatividade de técnicos na Premier League disparou. Clubes trocam de comando com uma frequência que era impensável na era Ferguson, e isso destrói justamente o ingrediente que sustentava o ritual, o tempo de convivência. É difícil criar uma amizade de vestiário quando o técnico rival pode não estar mais no cargo na próxima visita, ou quando o próprio anfitrião está sob pressão para não perder o emprego amanhã de manhã.

A globalização do banco de reservas também pesa. A liga hoje reúne técnicos de origens, idiomas e culturas de trabalho muito diferentes entre si, o que não impede amizades, mas reduz aquela sensação de clube fechado que existia quando praticamente todo mundo tinha passado pelas mesmas ligas inferiores inglesas.

A profissionalização apertou a agenda

Há também um fator mais prático: o pós-jogo virou território de mídia e de análise imediata. Entrevista coletiva, reunião com equipe de análise de desempenho, viagem de volta organizada com precisão logística, tudo isso comprime o tempo livre que antes sobrava para um papo de trinta minutos com taça na mão. O jogo de hoje já é insumo para o planejamento de amanhã, e isso deixa pouco espaço para ritual social.

Um costume, não uma regra perdida

Os técnicos atuais não são mais frios ou menos educados que os de antes. O cenário que sustentava esse hábito, carreiras longas no mesmo clube, o mesmo grupo de rivais aparecendo ano após ano, um mercado de trabalho menos volátil, simplesmente não existe mais na mesma escala. A Premier League de hoje tem mais dinheiro, mais pressão e mais rotatividade do que a de Ferguson e Redknapp, e a taça de vinho no gabinete foi uma das vítimas silenciosas dessa transformação.

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A Premier League consegue recuperar esse tipo de relacionamento entre técnicos?

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Era normal ver dois técnicos rivais, minutos depois de se destruírem taticamente em campo, sentados no gabinete do mandante com uma taça de vinho na mão.

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