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Carlos Kaiser: o que sobra da lenda quando alguém vai checar

Moça Bonita, estádio do Bangu Atlético Clube no Rio de Janeiro, durante partida em 15 de novembro de 2006.

Carlos Kaiser: o que sobra da lenda quando alguém vai checar

A história de Carlos Kaiser — o jogador que teria passado anos no futebol profissional sem jogar — virou documentário, livro e fenômeno global. O problema é que quase ninguém foi checar. Quando alguém foi, o que encontrou é mais interessante do que qualquer versão simples.

Redação Flagside·Publicado ·4 MIN DE LEITURA

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O documentário "Kaiser: The Greatest Footballer Never to Play Football", dirigido por Louis Myles, estreou no Festival de Tribeca em 21 de abril de 2018 e chegou aos cinemas britânicos em julho do mesmo ano. Em novembro de 2018, a VICE perguntou a Myles diretamente: ele havia visto imagens de alguma das 30 partidas que os documentos do próprio filme registram? "Não. Quer dizer, é o que o registro diz, mas pessoalmente não acredito que ele tenha jogado." Essa é a opinião pessoal do diretor — e ela contradiz os documentos que o próprio filme usou. Os documentos nunca foram publicados nem examinados por ninguém além da produção.

Myles foi consistente num ponto: "Não julgamos e não apresentamos nossa opinião sobre o que ocorreu ou não." Rob Smyth, autor do livro que acompanhou o lançamento, foi mais direto no Guardian em 26 de abril de 2017: "Sua memória está em algum lugar entre seletiva e defeituosa, e há um elemento inegável de fantasia em sua história." Sobre a cena mais famosa do filme — a expulsão no Bangu — Smyth disse à VICE: "Éramos céticos quanto a isso, mas há pessoas que juram que estavam lá."

Kaiser nunca disse que não jogou. Ao Globo Esporte, em 8 de maio de 2011, ele afirmou: "Jogo completo se tiver uns 20, 30, tem muito." Repetiu a mesma posição no Mesa Redonda, da TV Gazeta, em 30 de junho de 2019. A versão absoluta — a de que nunca entrou em campo — é o enquadramento do filme, não o dele.

A cena não resiste a uma checagem de tabelas. Kaiser situa o episódio num jogo contra o Coritiba, com o Bangu perdendo por dois a zero. Evandro Furoni verificou para o Tribuna Expresso em agosto de 2018: nos anos 1980, os dois clubes se encontraram cinco vezes, e o Coritiba só venceu por 2 a 0 uma vez — numa partida da Copa Libertadores de 1986, disputada em Curitiba, não no Rio. O técnico que Kaiser nomeia, Moisés, já havia deixado o clube nessa época. E o Bangu daquela campanha da Libertadores jogava seus jogos em casa no Maracanã, impedido de usar seu próprio estádio por questões de capacidade.

O rastro nos jornais complica ainda mais. A Biblioteca Nacional do Brasil registra o nome "Carlos Kaiser" no Jornal dos Sports em 1987, em 1994 e em 1995. Duas entradas são identificadas: "Bangu já tem o seu rei: Carlos Kaiser", de 7 de agosto de 1994, e "Kaiser, o goleador desempregado", de 5 de maio de 1995. Esse registro situa sua passagem pelo Bangu entre agosto e outubro de 1994. O banco de dados zerozero o coloca no clube em 1990. O filme situa o episódio de Castor de Andrade em meados dos anos 1980. Três fontes, três datas — nenhuma delas ancorada em um contrato ou uma ficha de registro. No período inteiro da Série B de 1994, que o Bangu disputou de 10 de agosto a 2 de outubro, o clube não saiu perdendo por dois a zero em nenhum jogo em casa. A única derrota por 2 a 0 para o Coritiba nessa janela foi, de novo, em Curitiba, em 24 de agosto de 1994. Ampliando para todo o histórico de 1985 a 1995: o Bangu nunca perdeu por 2 a 0 em casa para o Coritiba em onze anos. Cada vez que o Coritiba venceu por esse placar, o jogo foi em Curitiba. A checagem não prova que a expulsão nunca ocorreu; mostra que nenhuma partida correspondente existe nas versões que podem ser checadas.

Duas afirmações foram checadas com mais rigor — e as duas não sobreviveram. A passagem pela Gazelec Ajaccio, na Córsega: Fabio Barros, o Fabinho, brasileiro que realmente jogou lá entre 1986 e 1990, diz em câmera que Kaiser nunca pisou em Ajaccio, que as fotos foram tiradas no Clube dos Macacos no Rio, e que a carteira de jogador era a dele própria, emprestada e copiada. Dois ex-dirigentes do clube disseram o mesmo à FourFourTwo em 2012. A ligação com o Independiente de 1984: o Globo telefonou ao clube em 2011 e confirmou um Carlos Henrique no elenco — mas argentino. Trata-se de Carlos Enrique, lateral-esquerdo que jogou a final da Copa Intercontinental de 1984 contra o Liverpool em Tóquio.

O Bangu Atlético Clube emitiu nota oficial em 13 de maio de 2018 confirmando que Kaiser consta em seus anais e que o clube admite ter sido enganado. A FourFourTwo reportou em 2012 que Bangu e America confirmaram que ele esteve em seus quadros. O que nenhum clube confirmou é que ele tenha jogado. Essa distinção importa.

O trabalho de arquivo que sustenta boa parte do que se sabe hoje foi feito por editores anônimos da Wikipédia portuguesa entre 2021 e 2024 — anos depois do filme. Nenhum jornalista, livro ou documentário consultou o arquivo de jornais. Nenhuma organização brasileira de fact-checking examinou a história. Myles disse à Radio Ambulante ter confirmado que Kaiser foi registrado como profissional na CBF. Registro não é partida.

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A história de Carlos Kaiser — o jogador que teria passado anos no futebol profissional sem jogar — virou documentário, livro e fenômeno global. O problema é que quase ninguém foi checar.

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