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De Zerbi e a mentalidade: por que dinheiro não resolve tudo no futebol
Roberto De Zerbi jogou uma frase no ar que qualquer técnico de alto nível assina embaixo: mentalidade não se compra no mercado de transferências. É uma verdade incômoda num momento em que o futebol europeu está gastando mais do que nunca. O dinheiro resolve muita coisa, mas não resolve isso.
O que De Zerbi está dizendo, exatamente
A frase parece simples, mas tem camadas. Quando um treinador fala em mentalidade, não está falando de esforço ou de vontade genérica. Está falando de algo bem específico: a capacidade de um grupo de jogadores de manter comportamento competitivo sob pressão, de aceitar papéis que não são os que eles escolheriam, de jogar para o coletivo quando o individual grita mais alto.
Essa qualidade não aparece em nenhuma ficha técnica. Não tem como verificar antes de assinar. E o mercado, por definição, vende o que pode ser avaliado: velocidade, volume de jogo, histórico de gols, perfil físico. O resto é aposta.
De Zerbi sabe disso melhor do que a maioria. No Brighton, construiu um dos projetos mais elogiados da Premier League com um elenco que não tinha os maiores salários da divisão. O que tinha era um grupo que comprou a ideia. Quando o grupo mudou, o projeto ficou mais difícil de sustentar. Não é coincidência.
Por que o dinheiro cria o problema que tenta resolver
Existe uma ironia cruel no mercado moderno. Quanto mais um clube gasta, mais difícil fica construir mentalidade coletiva. Não porque jogadores caros sejam piores pessoas, mas porque a lógica que os trouxe até ali é a lógica do indivíduo.
Um craque que chegou por €80 milhões carrega expectativas, carrega agente, carrega ego construído ao longo de anos sendo o melhor em cada lugar por onde passou. Colocar esse jogador numa estrutura coletiva exige um trabalho enorme de convencimento. E quando você tem doze desses no mesmo vestiário, o trabalho fica exponencialmente mais difícil.
O Tottenham está no centro dessa discussão agora. O clube gastou de forma agressiva nos últimos ciclos e De Zerbi chega numa janela em que o Spurs continua movimentando o mercado com seriedade. Gastar de forma agressiva raramente silencia os críticos: no futebol inglês, o volume de investimento costuma gerar tanto escrutínio quanto expectativa. Mas o ponto de De Zerbi vai além disso: o gasto é necessário, mas insuficiente.
Os casos que provam o argumento
A história do futebol europeu está cheia de exemplos. O Manchester City de Pep Guardiola demorou uma temporada inteira para convencer jogadores caríssimos a pressionar sem bola como um time de segunda divisão. O processo foi lento, doloroso e dependeu de Guardiola ter tempo e autoridade para impor a cultura.
O Chelsea dos últimos anos é o caso oposto: investimento histórico, elenco gigantesco, e uma instabilidade de identidade que nenhum cheque conseguiu resolver. Não faltou talento. Faltou o fio que liga os talentos.
Leicester City ganhou a Premier League com um grupo que ninguém havia comprado para ser campeão. Aquele elenco tinha mentalidade porque tinha clareza de papel, confiança no método e um senso coletivo que não foi construído no mercado, foi construído no dia a dia.
Do outro lado do Atlântico, o Flamengo vive hoje uma versão local do mesmo dilema. O clube chegou às oitavas da Libertadores carregando uma crise alimentada, em parte, por decepções na janela de transferências. Contratar errado não é só desperdiçar dinheiro: é introduzir no grupo um elemento que não encaixa, que fragmenta, que complica.
Como se constrói o que não se compra
Se mentalidade não se compra, ela se cultiva. E o processo tem elementos conhecidos, ainda que difíceis de executar.
Tempo é o primeiro deles. Guardiola precisou de tempo. Jürgen Klopp precisou de tempo no Liverpool antes de transformar o clube numa máquina. Carlo Ancelotti precisou de tempo no Real Madrid para que a cultura do clube absorvesse os novos. Treinadores que não têm esse tempo raramente conseguem plantar o que precisam. Junto ao tempo, vem a coerência de mensagem: um vestiário percebe rapidamente quando o discurso do técnico não bate com as decisões do clube. Se o treinador prega coletivo e o clube traz um craque que não pressiona, a mensagem racha. E há ainda o recrutamento de caráter, não apenas de qualidade: alguns clubes têm departamentos de análise que avaliam perfil comportamental com tanto rigor quanto perfil técnico. Não é garantia, mas reduz o risco.
De Zerbi está no Tottenham agora, com dinheiro disponível e uma janela que não para. A frase que ele jogou no ar não é desculpa antecipada para o que pode dar errado. É um aviso sobre o que ele vai precisar construir além do que o mercado entrega.
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