Photo: Jimmy Baikovicius via Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)
Pelé era mais que artilheiro: o 9.5 que ninguém segurava
Pelé não era um 9 nem um 10, era os dois ao mesmo tempo, e isso é o que faz dele, até hoje, o atacante mais completo que o futebol já viu. A fama de artilheiro escondeu um jogador que decidia de todas as formas possíveis: driblando, armando, cabeceando ou simplesmente correndo mais rápido que a marcação.
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O mito do 'só matador'
A imagem que sobrou de Pelé para quem não o viu jogar é a do finalizador implacável, o cara que só precisava de uma bola na área para marcar. É injusta. Pelé mesmo dizia que sua posição preferida era por trás do centroavante, puxando o jogo, armando companheiros, abrindo espaço. Ele fazia isso e ainda assim era o artilheiro da equipe, porque tinha o raro combo de visão de jogo com instinto matador. Chamar Pelé de 9 é raso. Chamar de 10 também não fecha a conta. Ele era as duas coisas, e por isso praticamente impossível de neutralizar: marcar o homem não resolvia, porque ele encontrava o espaço nas costas; fechar o espaço não resolvia, porque ele resolvia com a bola no pé.
Um repertório sem ponto fraco
Perna direita, perna esquerda, cabeça, drible, velocidade, força física, leitura de jogo: Pelé tinha tudo isso e ainda contribuía defensivamente, cobrindo espaço de um jeito que a maioria dos camisas 9 ou 10 da história nunca se preocupou em fazer. O único item que falta no currículo é o passe longo de precisão milimétrica, o tipo de lançamento de 40 metros que definiu craques como Platini ou, décadas depois, De Bruyne. É um detalhe, não uma lacuna que derrube o conjunto da obra.
O final de 1970 como prova viva
Se existe uma imagem que resume esse pacote completo, é a final da Copa do Mundo de 1970, contra a Itália, no Azteca. Pelé já não estava no auge físico e havia quem duvidasse dele antes daquele Mundial. Resposta: abriu o placar com um cabeceio histórico e, minutos depois, assistiu Jairzinho, também de cabeça, fechando a conta daquele que é considerado um dos times mais completos da história do futebol. Gol e assistência de cabeça na final de uma Copa do Mundo, aos 29 anos, contra a melhor defesa do planeta na época. Poucos atacantes têm esse tipo de resposta guardada no currículo.
Ele elevava quem jogava ao lado
Tem um detalhe que separa Pelé de outros gigantes do jogo: jogadores como Jairzinho e Rivellino tiveram, ao lado dele, as melhores fases das suas carreiras, e nunca mais chegaram perto daquele nível sem ele. É o oposto do padrão comum entre os maiores: normalmente, jogar ao lado de um Messi, um Zidane ou um Ronaldo exige sacrifício dos companheiros, que abrem mão de protagonismo para o camisa 10 brilhar. Com Pelé, a lógica se inverte. Ele precisava de menos cobertura tática que os outros grandes, o que sobrava em espaço para quem jogava ao redor dele. O resultado prático: o time inteiro jogava melhor, não só ele.
Santos e Seleção, dois retratos do mesmo efeito
O Santos antes e depois de Pelé é outro exemplo claro desse efeito multiplicador: o clube santista virou potência mundial justamente no período em que ele vestiu a camisa, disputando e vencendo torneios intercontinentais contra gigantes europeus. Com a Seleção Brasileira, o recorte é parecido. O Brasil tinha elenco para vencer Copas mesmo sem ele, como mostrou 1962, quando Pelé se lesionou logo no início do torneio e a equipe ainda assim ficou com o título. Mas o nível de dependência tática em cima dele, mesmo fora de campo, ficou registrado: Pelé seguiu influenciando aquele grupo de fora, e o Brasil sem ele nunca teve a mesma ameaça ofensiva que tinha com ele em campo.
A conta final
Tirando a Europa do currículo, o que Pelé nunca jogou por clube, sobra uma carreira de três Copas do Mundo erguidas, um Santos que virou sinônimo de futebol-espetáculo e um repertório técnico que cobre praticamente qualquer função do ataque. Não é nostalgia. É o retrato de um jogador que fazia de tudo, em um nível que o futebol moderno ainda usa como régua.
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