Photo: Werner100359 via Wikimedia Commons (CC0)
O enigma das eliminatórias de Portugal sem CR7
Desde 2018, Portugal jogou 690 minutos de mata-mata em grandes torneios. Em 559 desses minutos, com Cristiano Ronaldo em campo, a seleção marcou apenas um gol de jogada. Nos 131 minutos restantes, sem ele, fez seis.
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Os números que incomodam
A conta é direta. Desde 2018, somando Copa do Mundo e Euro, Portugal disputou 690 minutos de jogos eliminatórios. Ronaldo esteve em campo para 559 deles e, nesse tempo todo, a seleção produziu um único gol de bola corrida: a finalização de Rafael Leão no 6-1 sobre a Suíça, já com o resultado resolvido. Nos 131 minutos em que Ronaldo não esteve em campo, Portugal balançou a rede seis vezes de jogada.
A diferença de proporção é absurda demais para ser só acaso de amostra pequena, mas também não é suficiente para fechar o caso sozinha. O que ela faz é expor um padrão que a torcida portuguesa vive sentindo mas raramente vê escrito com números: no mata-mata, a saída de Ronaldo costuma coincidir com a seleção encontrando o gol.
Onde isso aconteceu
Os recortes relevantes são específicos. Contra a Suíça, Ronaldo ficou fora dos 21 minutos finais. Contra Marrocos, dos últimos 40. Contra a Croácia, dos 9 derradeiros. Em todos esses três jogos, Portugal entrou na fase sem o capitão e mudou de postura: mais bola em movimento, menos dependência de um único homem para resolver, mais gente atacando espaço em vez de esperar a bola nos pés do camisa 7.
Vale notar que a contagem não inclui acréscimos, mas soma as prorrogações de Eslovênia e França na Euro 2024, dois jogos que foram parar nos pênaltis sem gol de jogada de nenhum lado em tempo normal e extra combinado. São exatamente esses duelos truncados, decididos na loteria, que mais alimentam a crítica de que Portugal, com Ronaldo em campo, trava o próprio ataque em vez de libertá-lo.
Por que isso acontece
O mecanismo não é mistério. Ronaldo, aos 39 e agora na casa dos 40, deixou de ser o jogador que desequilibra com velocidade e passou a ser, cada vez mais, um finalizador posicional: área, bola parada, pênalti. Isso tem valor, mas tem um custo tático. Quando ele está em campo, o time inteiro se organiza em função de fazer a bola chegar até ele na área, o que reduz a circulação e entrega ao adversário a tarefa mais fácil do futebol: marcar um homem só.
Quando Ronaldo sai, o treinador de plantão (seja Fernando Santos na Copa de 2022, seja Roberto Martínez na Euro de 2024) perde a obrigação de montar o ataque em torno de uma referência fixa. Os laterais sobem mais, os meias chegam com liberdade maior à área, e nomes como Leão, Bernardo Silva ou João Félix passam a jogar para si mesmos em vez de jogar para alimentar o camisa 7. O resultado, nos números acima, fala por si.
O que isso significa daqui para frente
Quem quer que comande Portugal na próxima fase eliminatória de um grande torneio vai ter de encarar essa pergunta, não como hipótese, mas como dado concreto. A amostra de 131 minutos sem o capitão é pequena demais para virar sentença definitiva, mas é grande demais para ser ignorada por qualquer treinador que leve a seleção a um mata-mata de novo.
Ronaldo continua ajudando a seleção. O problema é estrutural: times inteiros construídos para servir a um único finalizador ficam mais lentos e mais previsíveis do que o mesmo time jogando livre. Portugal sentiu isso em Doha, sentiu em Leipzig e vai sentir de novo se a solução, mais uma vez, for esperar a bola chegar pelos pés do camisa 7.
Portugal deve construir o ataque em torno de Ronaldo nas próximas eliminatórias?
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