Photo: Daniel from Glasgow, United Kingdom via Wikimedia Commons (CC BY 2.0)
City sozinho gastou mais que o 'Cartel Vermelho' inteiro
A narrativa que circula entre torcedores do City desde que as 115 acusações vieram à tona é a de que o clube só gastou no mesmo nível dos rivais tradicionais. Os números de transferências da década que levou o clube ao banco dos réus dizem o contrário: sozinho, o City gastou mais que Liverpool, Arsenal e Manchester United somados.
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O período em julgamento
As 115 acusações que pesam sobre o Manchester City cobrem exatamente a janela entre 2009 e 2018, o período em que o clube se transformou de time de meio de tabela em potência que disputa tudo. É justamente nessa década que a diferença de investimento no mercado entre o City e o resto do topo da Premier League chama atenção.
Os números, temporada a temporada
Saldo de transferências (compras menos vendas) de cada clube, por temporada, entre 2008/09 e 2017/18:
- 08/09: Liverpool -€27m, Arsenal -€14,35m, United -€37,8m, City -€128,65m
- 09/10: Liverpool +€5,05m, Arsenal +€35,7m, United +€77,17m, City -€117,9m
- 10/11: Liverpool +€5,27m, Arsenal -€14,9m, United -€12,34m, City -€143,46m
- 11/12: Liverpool -€47,33m, Arsenal +€12,82m, United -€49,41m, City -€59,60m
- 12/13: Liverpool -€60,15m, Arsenal +€9,85m, United -€66,8m, City -€17,65m
- 13/14: Liverpool -€25,6m, Arsenal -€37,10m, United -€75,33m, City -€104,2m
- 14/15: Liverpool -€52,16m, Arsenal -€91,18m, United -€148,65m, City -€72,50m
- 15/16: Liverpool -€35,95m, Arsenal -€24,0m, United -€55,33m, City -€141,03m
- 16/17: Liverpool +€9,08m, Arsenal -€102,65m, United -€137,75m, City -€180,9m
- 17/18: Liverpool +€10,85m, Arsenal +€9,55m, United -€152,9m, City -€226,15m
Somando tudo, o saldo negativo de dez anos fica assim: Liverpool -€250,61m, Arsenal -€216,26m, United -€659,14m. Junte os três e o chamado 'Cartel Vermelho' fecha o período com saldo negativo de cerca de €1,126 bilhão. O City sozinho fecha em -€1,192 bilhão. Mais que os três principais rivais somados.
Por que isso desmonta a tese da 'perseguição'
O argumento repetido por parte da torcida do City é o de que o clube apenas acompanhou o mercado, gastando em linha com quem sempre dominou o futebol inglês. Os números desmontam isso de duas formas. Primeiro, em volume bruto: nenhum dos três rivais tradicionais chegou perto do nível de investimento do City em nenhuma das dez temporadas analisadas, muito menos em sequência. Segundo, no formato do gasto: enquanto Liverpool e Arsenal tiveram temporadas inteiras de saldo positivo, vendendo mais do que compravam, o City nunca teve um único ano de lucro líquido em transferências no período inteiro.
O contraste Klopp x Guardiola
O ponto fica ainda mais evidente ao isolar o trecho final do recorte, entre 15/16 e 17/18, exatamente quando Jürgen Klopp assumiu um Liverpool de meio de tabela e começou a reconstrução que levaria o clube de volta ao topo da Europa. Nesses três anos, o saldo somado do Liverpool ficou perto de zero, enquanto o City gastou sozinho mais de €500m líquidos só nesse recorte. A ascensão do Liverpool na era Klopp aconteceu com fração do investimento que o City fez no mesmo espaço de tempo, o que torna a reconstrução dos Reds um feito de gestão e não de talão de cheques.
O que isso muda na leitura do caso
As 115 acusações da Premier League não giram em torno de o City ter gastado muito, gastar é legal. Giram em torno de como esse gasto foi disfarçado, com patrocínios inflados e salários mascarados para contornar as regras de fair play financeiro. Mas a ideia de que o City só fez o que os rivais históricos sempre fizeram, em escala parecida, não resiste aos números da própria década em julgamento. O clube não acompanhou o mercado: redefiniu o teto dele sozinho.
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